sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

ano 1987

"-Bom dia... tem as orelhas furadas?"
"-não, quer dizer... só se forem os furos que me fizeram em pequeno pra recolha de sangue, no hospital Maria Pia..."

era assim que poderia começar uma pequena história das inúmeras idas ao hospital pediátrico do Porto, com a minha mãe. sempre com a minha mãe.
lembro.me perfeitamente desses dias em que faltava ás aulas para ir ás consultas no hospital. as consultas eram sempre de manhã e, pra isso, levantava.me super cedo, ainda o sol não raiava. em quase todas as vezes era o meu pai que nos levava na sua velhinha 4L- raramente íamos de camioneta. recordo.me também que andavamos quilometros, por vezes, até lá chegar.
pode.se dizer que eu já conhecia bem a planta do edifício imponente, os cantos e as salas do hospital; dessa mesma forma, também as enfermeiras, médicos e algumas mães e respetivos filhos também já sabiam o meu nome, de tantas vezes eu lá ter ido.
até aos meus 12 aninhos, foram várias as especialidades médicas por mim frequentadas: urologia, alergologia, pediatria e, mais tarde oftalmologia. normalmente as consultas eram relativamente rápidas, o que dava pra ir ainda almoçar a casa e, se possível ainda ir pra escola. quando porventura tinha mais de uma consulta nesse mesmo dia, então era certo que não iria ter aulas.
ainda hoje a minha mãe me contou que (a propósito de uma ida minha com a H. ás vacinas e ao facto dela ter chorado imenso) nunca fui uma criança de me queixar com nada. Sinceramente só me lembro de chorar na minha vida com coisas ligadas ao coração... eh eh eh levava as minhas injeções, tomava todo o tipo de xaropes e nunca me queixei. e posso.vos dizer que, razões não me faltaram para berrar de dores...
recordam.me duas pessoas em particular: a Irmã Maria em urologia e o Dr. Leonel em alergologia. a 1ª olhou por mim como se da minha mãe tratasse tal era a sua infinita bondade aquando da minha operação aos testículos; talvez me lembre melhor do dr. Leonel por ter sido a especialidade que justificou mais consultas. ás vezes penso se essas pessoas de que me lembro ainda estarão entre nós...
á saída do hospital havia uma papelaria/ tabacaria/ sítio onde se vendem senhas pró autocarro. esse local era mágico pra mim pelo simples facto da minha mãe me comprar sempre 2 livrinhos da Disney- um pra mim e outro pra minha irmã. e não estou a falar de alguns mas sim de umas boas dezenas de revistas o que fez com que os meus 1ºs heróis infantis fossem o Donald, o tio Patinhas e o Pateta... também comprava cromos prás nossas cadernetas que, mal chegássemos a casa, íamos a correr busca.las pra ver se tinha saído algum cromo repetido...
na volta pra casa, apanhávamos o 69 pró Seixo (da mítica empresa de transportes Jota) na rua de Sá da Bandeira, em frente a um stand de motas, uma casa de fotografia, que eu já não sei se ainda existem e, principalmente, do café Moreda. era neste café que a minha mãe me comprava sempre um bolo á minha escolha com o qual me vinha a deliciar até Fânzeres...
com o atinjir da minha maturidade deixamos de frequentar esse hospital, pra grande pena minha. esse meu terminar de ciclo coincidiu com uma profunda remodelação ao hospital- hoje com certeza me perderia se lá fosse. adorava todo aquele dia não só pelos livrinhos e o bolo mas também por estar com o meu pai e com a minha mãe a maior parte do dia, o que era coisa rara...

espero um dia também contribuir para que a minha filha tenha estas boas memórias de idas a SAPs e hospitais e SASUs tal como eu tenho; não devemos só recordar as idas á praia ou ao cinema como as coisas boas da nossa infância,. devemos também lembrar aqueles que sofreram connosco quando estavamos numa cama do hospital a recuperar ou aqueles que nos visitavam regularmente...